Ana Paula Bergamasco - Apátrida
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Visceral...
Essa é a palavra que eu usaria para descrever esse livro de Ana Paula Bergamasco, uma vez que ela consegue extravasar tantos sentimentos, de tantas pessoas, de tantas nacionalidades, pertencentes a tantos povos. É um livro sem partidos, sem acusações, nem acoitamentos. Todos os lados da situação...
Através dos olhos e das lembranças da polonesa Irena, podemos conhecer parte do que realmente foi a segunda grande guerra: o que a loucura da crença da existência de uma raça superior fez, como se deu a “limpeza” étnica, quantas injustiças e barbáries o holocausto protagonizou.

Apátrida
Ana Paula Bergamasco
Ana Paula Bergamasco
Irena foi uma criança como outra qualquer de seu tempo e cultura, cresceu no campo polonês, caçula de 8 irmãos, sua grande alegria era brincar belos bosques, despreocupadamente sendo criança. Filha de uma família humilde, passava por muitas necessidades e privações. Prova da situação precária foi o fato de uma de suas irmãs morrer por falta de atendimento médico, ainda criança. No enterro foi que Irena, que não contava mais do que quatro anos e meio, viu Jacob pela primeira vez. Desde então ela sempre o amaria... ainda que ele fosse um judeu e ela, uma goy.
Jacob era filho do um médico judeu Yossef, que muito tempo atrás fora amigo de Jan, pai de Irena, antes que desavenças os afastassem. Devido a esse afastamento e também por não ter dinheiro para pagar, somado ao orgulho em não pedir, não chamaram o médico para examinar a menina. Passado algum tempo, a mãe de Irena adoeceu, mas dessa vez o médico foi chamado. Sua reaproximação com a família de Irena propiciou o reatar da amizade, e também a possibilidade de convívio entre Jacob e seus irmãos, com Irena e seus irmãos. Logo uma forte amizade os uniria... (*Amizade essa seria a grande salvação dos irmãos judeus durante os anos de guerra, e a segregação dos judeus no gueto de Varsóvia)
Mas as crianças crescem e as responsabilidades aumentam. Jacob, ainda que amasse a Irena com todo seu coração e fosse em igual medida correspondido, é obrigado a seguir suas tradições familiares e cultural, e logo se casa. Irena fica inconsolável, e quase “morre de amor”. Erguendo-se aos poucos, ela encontra o lindo e bondoso Rurik, por quem se apaixona, e vai viver na Bielorrusia, após o casamento. Lá Irena tem contato com o regime comunista, e um horrível vislumbre da bola de neve que poderia se tornar...
Prosseguir a narrar os faltos daqui sem dar mais spoiller é uma missão praticamente impossível, pois o livro conta com 335 páginas, dividido em 59 capítulos, sendo que o casamento de Jacob ocorreu na altura da página 34, e o de Irena, na pagina 47.
Os capítulos são relativamente curtos, mas como a história é narrada em primeira pessoa, num ritmo constante, muitos acontecimentos podem preencher três páginas.
A narrativa inteira de Ana Paula Bergamasco é permeada de um sentimento tão pungente de tensão e emoção, que confesso ter ido às lágrimas inúmeras vezes, especialmente nos grandes encontros e revelações, e também nos acontecimentos mais trágicos.
Na capa do livro diz: Uma paixão, Uma Guerra, Vários destinos... Descrição exata do que se esperar de “Apátrida”, um livro completo, onde todos os conflitos, de todos os personagens, são resolvidos, ou ceifados. As descrições ou menções dos momentos de guerra, as atrocidades cometidas nas cidades e nos campos de concentração contra judeus, homossexuais, idosos, crianças, ciganos e incapacitados nos deixam em enorme tensão. Os assassinatos sem motivos, o extermínio em massa... É triste saber que, ainda que “Apátrida” seja uma obra de ficção, é uma ficção que relata veridicamente as agruras vividas e sofridas por milhões de pessoas.
Uma Paixão:
“Amar alguém é vê-lo como Deus o concebeu. Assim dizia Dostoievski e foi desta forma que aprendi a amar o homem que permeou minha vida.
Eu não sei explicar o início deste sublime sentimento. Se foi naquele dia, em que com apenas quatro anos e meio eu o encontrei pela primeira vez, ou se frutificou depois, ao nos tornar-mos íntimos amigos. Amei Jacob pura e profundamente e sei que ele nutriu o mesmo afeto por mim.” Página 33
Uma Guerra:
“... Está escrito que, quando houvesse relativa paz na Terra, iniciaria súbita destruição. Foi assim o início da Segunda Guerra. Ninguém imaginava o tamanho da desgraça e muito menos a força com que ela se abateria sobre nós, poloneses.” Página 83
“... O quanto vale a minha vida? E a das demais pessoas? Poderia ser dimensionada por quais parâmetros? U valor em dinheiro? Uma quantidade de Bens? A sua origem étnica ou religiosa? A sua preferência sexual? Os seus costumes?
Não. Nenhum parâmetro valido qualificava minha vida, nem a de meu filho, parentes, amigos e estranhos. Nós temos um mesmo e inestimável preço. Naquela noite, eu quase a perdera por mero capricho de dois soldado. Eles me arrebatariam meu maior tesouro em troca de absolutamente nada. Sim, a guerra é uma injustiça, pois arranca de muitos tudo o que eles têm, sem dar-lhes nada em troca.” Página 99
“Treblinka. Auschwitz. Chelmno.O que estes nomes lembram? Cidades? Campos de Concentração? Morte? Estes nomes não deveriam ter somente estes significados, pois, se assim o for, serão considerados como maus um da realidade da Segunda Guerra Mundial., e esquecidos.
Na verdade, o significado destas palavras é a ausência total de respeito humano. È a negação da nossa própria raça. A desconsideração pura do que somos. O oposto da razão pela qual vivemos. O último estágio na nossa ignorância e o primeiro de nossa loucura.
Muitos sabiam. Ninguém impediu. Nem aquele que poderiam tê-lo feito”. Página 177
Vários Destinos:
'“__Valeu a pena ter sobrevivido?
Eu afirmei que sim com a cabeça. Ele coçou os olhos inchados de chorar.
__ Pois para mim, não. O único motivo pelo qual aceito viver é para realizar, ano após ano, as orações para a minha família e cumprir o desejo do coração de minha esposa. Nada mais. A esperança que tenho é da morte, pois da vida nada me restou, a não ser angústia pelo que assisti e tristeza pelo que vivi.” Página 128
...Ler “Apátrida” foi um aprendizado.
Gostei demais de acompanhar a transformação de Irena em camponesa, simples e ignorante, à mulher e mãe forte, que durante os horrores presenciados na guerra fez de tudo para proteger seus filhos, passando inclusive por cima de sua dignidade.
O significado do nome Irena é “divindade de paz”. A Segunda Guerra mundal foi um período lamentável, mas é impossível não pensar nas feridas que deixou na humanidade. Quantas Irenas sofreram, sem paz, quantas crianças morreram, quantas pessoas foram destituídas de sua condição humana, ao serem consideradas “escória”, por uma “raça superior”.
Finalizando, afirmo que “Apatrida” é o melhor livro nacional que li este ano de 2010. Eu gostei muito da narração da autora, que inicia cada capítulo com tão despretensiosa sutileza, mas que consegue nos levar exatamente aonde quer. Uma viagem entre passado e presente, com citações indiretas que vão desde Camões a Fernando Pessoa, passando por Dostoievski. Analogias que, embora inseridas no período guerra, refletem tão sabiamente nosso tempo atual.
Minha única crítica é que, embora a período guerra seja inegavelmente embasado, com datas, nomes e fatos, por vezes eu me confundi nas janelas cronológicas em meio à narrativa, que relatavam trechos da adaptação e vida de Irena e filhos no Brasil. Poderia ter datas, também, ou dar dicas do momento político, para ser mais fácil situar as idades das crianças.
Ah... A arte do livro é linda! O azul da íris lacrimejante se destaca, brilhante, na capa fosca. A gota de lágrina também é brilhante, e por vezes me vi passando os dedos sobre ela, tentando secar, pois é incrível a sensação de que ela é real e está caindo... A orelha da contracapa se encontra em branco, a não ser por um único desenho, também brilhante, de uma rosa vermelha. Ainda sob o efeito da leitura, a cada vez que vejo essa rosa, fico chorosa, pois ela representa... Não vou falar! Terão que ler!!! =^_^=

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Uauuuu. Me emocionei com a resenha. PERFEITA.
ResponderExcluirNossa, adorei, parece mesmo ótimo!
ResponderExcluirGosto de livros assim.
Anotado!
Beijos
Que resenha fantástica! Estou ansiosíssima para ler Apátrida! Com certeza, Ana é mais uma autora brasileira que veio para nos surpreender^^
ResponderExcluir"Finalizando, afirmo que “Apatrida” o melhor livro nacional que li este ano de 2010. " Isso fala por sí só... Tenho certeza que você vai despertar os desejos de vários leitores (:
Fiquei bem curiosa para saber o significado da rosa... E a capa deve ser linda mesmo com esses efeitos que você falou!
Adorei =*;*=
http://promocoesnaprateleira.blogspot.com
Obrigada pela dica de leitura.
ResponderExcluirA resenha belissima, incentivando nos leitores para ler o livro.
Vc conseguiu me deixar muito curiosa para ler este livro!!!
ResponderExcluirhttp://conversandocomdragoes.blogspot.com/
Ótima resenha, gostei muito da introdução e pelos trechos o jeito da autora escrever me agradou bastanta, espero poder ler.
ResponderExcluirEi Sa,
ResponderExcluirResenha perfeita, amei. Eu já tinha gostado muito da capa e li em outro blog tbm sobre ele, mas este último trecho que vc citou do livro fiquei arrepiada. Quem que ta falando que não valeu a pena ter sobrevivido?? que triste, eu quero ^^
bjooo
*A narrativa inteira de Ana Paula Bergamasco é permeada de um sentimento tão pungente de tensão e emoção...*
ResponderExcluirTensão e emoção, esas 2 palavras e sua resenha muito bonita me lembrou na hora do filme o "Pianista"... parabens
Caramba, esse é um livro nacional??? Arrepeiei com a resenha. Que massa! Quero ler agoraaaaaa!
ResponderExcluirParabéns pela resenha!O livro aborda um tema delicado mas que não deve ser esquecido. Muito interessante !!!Quer ler!
ResponderExcluirSabrina, vc escreveu uma resenha soberba. An Paula Bergamasco é minha amiga e por causa dela comecei um blog para ajudá-la na divulgação. Mas sou novata no meio de tantas feras nesta blogosfera maravilhosa e essa sua resenha me deixei fascinada. Eu tive o privilégio de ler o livro antes de ser publicado e fiquei na torcida para Ana conseguir publicá-lo. Agora torço para que mais e mais pessoas possam comprar o livro e se emocionarem com ele, como nós nos emocionamos. Eu já sigo seu blog já faz um tempinho, e gostaria que vc visitasse o meu tb, e me deixasse sua opinião sincera do que achou. Te espero lá.
ResponderExcluirhttp://leiturasdeeliane.blogspot.com
Beijo
Oi Sabrina!
ResponderExcluirQue resenha mais empolgada! Me deixou emocionada. O livro parece ter uma historia linda e sensivel. Parabéns pela resenha perfeita.
Bjs
Eu estou doida pra ler esse livro... parece ser daqueles que a gente se emociona do começo ao fim, e já li que a pesquisa histórica foi muito bem feita...
ResponderExcluirA capa é linda... pessoalmente deve ser um espetáculo...
beijos,
Dé...
o livro é muito bom to adorando acho que vc vai gosta quando começar a ler obrigada pela visita
ResponderExcluirDepois desta resenha só me resta um caminho: comprar esse livro.
ResponderExcluirSua resenha conseguiu me fascinar de tal modo, que mesmo antes de ler o livro já me vejo cativa nesses personagens.
Parabéns.
Mayara
Oi, Sabrina!
ResponderExcluirAo ler sua resenha, fiquei impressionada com o mote do livro e os fatos históricos. Adoro livros assim, que mostram uma realidade nua e crua, ainda mais depois de ler "Pequena Abelha", de Chris Cleave, nada mais me surpreende!
Estou doida p/ ler esse livro e achei a capa belíssima! A história deve ser muito tocante e profundamente comovente!
Mal posso esperar p/ lê-lo!
Adoro livros que tem o dom de serem inesquecíveis e que nos marcam de alguma forma!
Beijos.
Caramba, adorei! Fiquei com vontade de ler, de verdade!
ResponderExcluirBeijos!
Gosto muito de livros densos. Já li muita coisa da segunda guerra mundial e histórias vividas na época do nazi-fascismo.
ResponderExcluirFiquei com muita vontade de ler este por causa do relacionamento poloneses x judeus. Quero explorar mais estas nuances!
Parabéns pela resenha. É difícil encontrar blogs que escrevam mais do que a sinopse dos livros^^.
Quanto entusiasmooooooo!
ResponderExcluirmelhor leitura nacional de 2010? Caramba!!
Que legal!!
Bj
Alê
Sa, a resenha ficou ótima, não lembro de ter lido resenha sobre esse livro, mas ele parece ser muito bom. ^^
ResponderExcluirbeijos
Como autora, fico emocionada com a sua resenha. E espero que realmente agrade os demais leitores, como a você. Um abraço cordial a todos!
ResponderExcluirQue resenha fantástica foi essa, menina? Eu só havia lido uma resenha sobre esse livro antes e, sinceramente, não me despertou aquela vontade insacialmente de ler como a sua!
ResponderExcluirLista de desejados no Skoob, já!
Já tinha ouvido falar da Apátrida, mas não me interessei muito.
ResponderExcluirCom o post de vocês, tive uma outra ideia sobre ele.
adorei a resenha
ResponderExcluiradorei essa capa
quero mt ler
nossa, desse jeito vou a falencia
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
bjokas
Gosto de livros ambientados no período da Segunda Guerra Mundial. E interessante esse título, porque nessa época, não ter uma pátria, ao mesmo tempo que significava perda de identidade, poderia significar sobrevivência.
ResponderExcluirEstes livros sobre a Segunda Guerra e o Holocausto são importantes, porque logo não teremos mais sobrevivente para contar sua história. E é preciso manter essa história viva nas mentes das gerações futuras, para que esse horror não se repita.
ResponderExcluirParabéns pela resenha!
Assim que vi a capa achei tão linda e a resenha me deixou bem curiosa também, pela sua euforia parece ser relamente muito bom, beijos.
ResponderExcluirCaramba, que resenha linda *-*
ResponderExcluirMuita vontade de ler Apátrida, parece o tipo de história que faz a gente crescer enquanto lê.
Beijos,
Celle
Wow ... sabe eu lembro que a última vez que li um livro que tem como pano de fundo uma guerra *eu me emocionei horrores* e olha que era um livro com teor meio evangélico - Mil cairão ao teu lado - fiquei super na vontade pra ler ... OMG nem me apresentei ... estou aqui pela primeira vez e amei a resenha, é sempre bom dar espaço nas nossas estantes para autores nacionais... Parabéns
ResponderExcluirQue emocionante sua resenha Sabrina! Eu também achei a capa do livro linda, o contraste do fosco com o brilho da íris azul ficou legal.
ResponderExcluirMe deixou curiosa pra ver se o livro faz jus a capa.
Nossa, muito boa resenha... o livro parece ser muito forte, não no sentido de "pesado", mas emocionante... muito bom!
ResponderExcluirgostei da resenha e pretendo ler o livro em breve (já adicionei até no skoob pra nao esquecer!!)
ResponderExcluiralém do mais a autora é brasileira né? temos que dar mais valor à literatura nacional!
Gosto muito de livros sobre o holocausto. Esse está na minha lista desde que li a primeira resenha. São histórias de dor, sofrimento, esperança, emoção.Quero muito. Pricipalmente porque é de um autor nacional.Bjks. Bela resenha.
ResponderExcluirNossa, acho que esta é a melhor resenha que já li.
ResponderExcluirPercebe-se por ela que você gostou muito do livro e que ele é magnífico. Já tinha lido sobre o livro
antes e não o tinha achado tão interessante, mas após esta resenha ele entrou na minha lista de livros obrigatórios a ler. Quero ler mais livros nacionais, mas parece que quase só publicam os com
tema sobrenatural aqui, o Apátrida se destaca entre eles.
Mais um titulo que explora os sentimentos existentes em tempos de guerra, em geral eu gosto muito de ver como o personagem se desenvolvi, e como vc mesmo mencionou nossa protagonista sofre transformacoes ao longo da vida, parece ser uma historia e tanto. Uma vida inteira a ser explorada.
ResponderExcluirAdorei a resenha.
Quero ler o livro!!!!
Nossa!
ResponderExcluirFaz é tempo que desejo e quero esse livro.
Desde a primeira resenha que li, me interessou muito.
Parabéns por sua resenha.
cheirinhos
Ruddy
Faz tempo que quero ler esse livro, essa resenha só serviu pra me deixar mais ansiosa!!
ResponderExcluirbjs
A resenha é muito linda e dá uma enorme vontade de conhecer mais e se emocionar com este livro. Fiquei curiosa e quero muito ler. Vai para a minha lista!
ResponderExcluirNão existe barreiras entre diferentes povos.
ResponderExcluirNossa que vontade de ler esse livro.... a resenha me deixou muito curiosa para explorar cada página desse livro.... s2
ResponderExcluirSempre leio resenhas muito boas desse livro. Parece ser muito bom
ResponderExcluirThiago
http://outroconceito.blogspot.com/
Eu não estou conseguindo postar aqui com minha conta do Google (Não sei porquê) então vou deixar o meu e-mail aqui, certo?
ResponderExcluirSáa, ainda hoje eu li palavras da Lari que falam sobre este livro (um post antigo) e fiquei curiosa pra ler tua resenha. Não me arrependi, claro! No que li hoje percebi que Apátrida é mesmo uma história fantástica. E, sinceramente, ainda não encontrei defeito nessa obra. A começar pela capa já juguei o livro lindo, tenho pesquisado sobre ele após a promoção de aniversário daqui do Leituras, inclusive até já visitei o blog do Livro e cada vez mais me sinto no dever de ler essa "Guerra", essa "Paixão"!
Beijos.