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Entrevista: Janice Diniz

Faz muito tempo que não entrevistamos nenhum autor... Mas, ultimamente, meu lado jornalista apareceu. E quem melhor que Janice Diniz para entrevistar?




Seu livro Terra Ardente foi lido por mim, Lariane, e também pela Sabrina, e nós duas nos apaixonamos, também pudera: Janice Diniz arrasa!


"Bora" conhecer mais sobre essa autora? 

O que a autora Janice Diniz gosta de ler? Qual livro você tem atualmente na cabeceira? Fale-nos um pouco sobre ele.
Não posso dizer que leio de tudo; já li de tudo, principalmente a literatura francesa, que já foi a minha preferida. Antes disso, lá pelos meus 13, 14 anos eu lia romance de banca, em torno de uns três por dia. Com o passar do tempo, comecei a estudar Filosofia e, para contrabalancear, voltei a ler livros com muito amor no coração, como os da Janet Dailey!!! Claro que entre a literatura francesa e a americana, passaram o Tchecov, Hermann Hesse, Bukowsky, Machadão, o meu amor Fernando Sabino e um bando de gente. Agora estou lendo pouco, porque anda não terminei o terceiro livro da série. Mas, ainda assim, já avancei algumas páginas no “Os Donos da Terra”. De quem mesmo? Ai, ai...da Janet Dailey (risos).

Como foi sua formação como leitora, como você foi apresentada aos livros?
O meu vô materno era um leitor compulsivo, um rato de biblioteca, e eu meio que cresci entre as prateleiras das bibliotecas públicas de Porto Alegre. Aos 15 anos, já estava tão fissurada por livro, que devorei até a coleção de livros espíritas da minha vó, a Ninita (que ganhou um personagem em Terra Ardente) e, depois, tinha pesadelos à noite e durante o dia via a aura dos outros (risos). Agora, sério, a leitora já nasceu escritora, assim que comecei a ler ficção também nasceu minha primeira historinha de amor.


Seu encontro com os livros influenciou seu desejo de ser escritora? A resposta preferida da menininha Janice Diniz ao ser questionada sobre sua profissão sempre foi “Quando crescer vou ser uma grande romancista!”?
O fato de eu gostar de escrever e, segundo meus professores, escrever bem, não significava que tinha obrigação de ser escritora. O meu prazer era escrever, contar histórias. Hoje, mais do que nunca, sei que há um abismo que separa o “escrever bem” do “ser escritora”, assim como sucesso e talento não andam de mãos dadas. Como mencionei antes, a leitora e a escritora surgiram ao mesmo tempo e o casamento está dando certo até hoje (risos). Por outro lado, não me lembro de alguém ter me perguntado a respeito disso. Acho que justamente porque para a minha família era normal me ver (agora uma palavra fora de moda) datilografando minhas histórias dia e noite. E, no fim, demorou, mas me tornei uma romancista, não sei se “grande”, talvez uma romancista de 1,55 de altura (risos).

Como você vê o futuro online? A internet abre portas para autores, ou pode prejudicar, dado grande fluxo de pessoas tentando uma oportunidade?
Acredito que a internet ajuda a divulgar o trabalho de todo mundo. Às vezes, quem sobrevive é quem tem mais fôlego financeiro para se manter; às vezes, é quem tem mais estrutura psicológica para aguentar. Permanece quem topar as regras do jogo ou quem descobrir um caminho alternativo. Na área literária, a internet é menos perigosa do que as editoras e todo um universo de supostos “agentes literários” e profissionais que aparecem da noite para o dia a fim de lucrar em cima de escritores ingênuos que confundem sonhos – que se encontra apenas nas padarias, com projeto profissional, que é de fato a carreira de um escritor.

Qual dica você daria aos jovens escritore?? Quais as dificuldades que você enfrentou para publicar seus livros? Fale sobre um pouco de sua experiência pessoal
Primeiro,  escritor que não sabe gramática, para mim, é um cretino resistível (risos). Ok, não é um cretino, mas é metade de um escritor. Escrever faz parte do seu ofício, então saber as regras básicas do texto escrito é uma obrigação. Tem de saber a gramática para poder se sentir livre dela ao ponto de reproduzir fielmente todas as ideias e cenas que se formam dentro da nossa mente e que somente o escritor as “vê”. Além disso, sabe quanto vale o trabalho de um bom revisor? Caro, muito caro, se ele de fato for bom. E as editoras não oferecem mais esse serviço; algumas até cobram por fora e outras mentem que fazem a revisão e depois aparecem os podres nas resenhas. Bom, quanto à dificuldade para publicar é sempre a mesma história: só não rejeitam os originais as editoras as quais o autor paga para publicar, mesmo as que fingem que “avaliam”, elas, na verdade, deixam passar tudo porque o negócio é a grana mesmo. As editoras que “bancam” a publicação, normalmente, pedem uma sinopse e acabam rejeitando a sinopse, sem ler o livro. Eu escrevo romances desde os 12 anos e parei aos 20. Onze anos depois, quando me divorciei e voltei para o sul com meus filhos pequenos, retomei a escrita e apenas em 2009 decidi publicar. A partir disso, vi muita coisa acontecer no mercado editorial e assim resumo minha experiência em três dicas para os iniciantes: ame a gramática, junte dinheiro (sem pensar muito no retorno) e compre antiácidos.


Certa vez você me relatou que levou anos para aperfeiçoar Terra Ardente e, inclusive, muito se preparou para escrevê-lo. Acredita que todos os autores brasileiros devam passar por este processo?
Caso eles queiram escrever alguma coisa que preste, sim (risos). A escrita de um livro começa bem antes de se redigir a primeira palavra. É mais ou menos como chocar um ovo, imagino (imagino porque nunca fui uma galinha para saber kkk). Você fica por anos, meses em cima da ideia até ela amadurecer; pensa nela, come com ela, fica na cama com ela, toma banho com ela, e essa ideia é claramente a primeira manifestação de vida dos personagens, são eles dizendo que estão chegando e vão tomar conta da tua vida e da tua alma até você escrever a última palavra do romance. Para mim, os personagens de Terra Ardente resolveram aparecer de vez quando perceberam que eu já estava pronta para compreendê-los e já estava confiante o suficiente para deixá-los me guiar durante a história e a série inteira. Além disso, eu precisava “viver” antes de escrever para, assim, ter o que contar. E vivi na terra deles, no interior do MT, e, possivelmente, todos os sentimentos que aparecem no livro, todos, sem exceção, eu também já senti e tornei a vivenciá-los ao escrever.

Você faz muitas pesquisas, “incuba” ideias, ou parte direto para a escrita? Sempre tem em mente qual vai ser o próximo acontecimento ou seus personagens acabam tomando rumos próprios?
Aprendi com o Stephen King a pesquisar durante a escrita e não antes. E, desde então, está dando certo. Antes, pesquisava primeiro para, depois, começar a escrever. O problema era que perdia a vontade de escrever sobre algo exaustivamente lido e pesquisado. Como a série Matarana não é um romance histórico, então a pesquisa foi em relação à vida nas grandes fazendas, trabalho escravo, pistoleiros, armas, etc. Aliás, só pesquiso sobre o que me interessa e não por obrigação, ou seja, se o assunto é chato, mudo de assunto e ele não aparece na história (risos). É claro que tenho um esquema com quase todos os capítulos e cenas que devem aparecer e, inclusive, o número total de páginas de cada capítulo e que sigo fielmente. Entretanto, a partir da criação e solidez da personalidade dos personagens, a história em si começa a ser contada. Os personagens conduzem o enredo se atendo minimamente ao que eu planejei no início. De minha parte, deixo os bichos soltos (risos). O Franco, por exemplo, tomou seu próprio rumo; de apenas um mero coadjuvante, o braço direito de um dos protagonistas, passou a ser um dos protagonistas, e eu deixei, claro. Assim como um dos vilões, que se mostrou quase um herói e me surpreendeu no segundo livro e, agora, no terceiro, até aceitaria um pedido de casamento dele (risos). É uma série romântica e de ação, tudo muda o tempo inteiro, e os personagens são o motor da máquina toda. Eles mandam.

Tem alguma rotina para escrever? Ouvir músicas? Algum horário em específico?
Nenhuma rotina nem frescura. Escrevo quando quero, com ou sem música. Só não posso estar preocupada com os filhos, de estômago vazio ou dor de cabeça. O resto é moleza, sou operária da escrita, abro o Word, leio o que foi escrito antes, baixo a cabeça e mando ver.

Como você lida com as críticas?
As positivas? Lido muito bem, obrigada! (risos)
Ainda não tenho muita experiência com crítica negativa, mas acredito que o leitor ou resenhista tem todo o direito de expor a sua opinião. Todo o profissional, seja figura pública ou não, está exposto às opiniões alheias e tem de estar preparado para isso; caso contrário, “pegue o seu banquinho e saia de fininho!” (risos) De minha parte, quando não gosto da resenha (seja negativa ou supostamente positiva), procuro não comentar a respeito nem alardear sobre algo que não me interessa, por que aí já sou eu que estou no meu direito de não me manifestar.

Houve uma brincadeira correndo entre as blogueiras que é bem interessante, pois é inocentemente reveladora, e ao mesmo tempo um bem necessário às relações tão “superficialmente profundas” que a internet nos proporciona. Gostaria que você concordasse em realizar, e dar ao leitor uma oportunidade de conhecê-la mais afundo...

Janice Diniz versus 7 Pecados capitais.

Avareza – Uma poesia: “quem não tem avareza, morre na pobreza” (risos)
Soberba – É um defeito sem elegância. Acho que é único que eu escapo.
Gula – Sim, muita, gula por livros, comida, dinheiro...
Ira – Vixe, sou baixinha de pavio curto. Explodo todos os dias. Já xinguei (e muito) até o micro-ondas e ele nem era meu.... mentira, ele era meu (risos)
Inveja – Da Janet Dailey!!!! Vende milhões de livros no mundo inteiro e só é fotografada sorrindo como se vendesse milhões de livros no mundo inteiro, afff
=> Preguiça – Se eu fosse menos preguiçosa, já teria terminado o terceiro livro da série.
=> Luxúria – Um tipo de esporte (risos)
Vou entender esses “pecados capitais” como características da personalidade, já que não sofro qualquer influência religiosa J

Nem só de pecados vive o homem... Qual considera ser sua maior virtude?
Não sei se nasci assim ou se foi através de anos lendo livros de psicologia e filosofia, mas eu tenho uma percepção bastante aguçada sobre o comportamento humano, um senso analítico que enxerga os sentidos, as intenções, o não-dito por trás da aparência e do que as pessoas expressam. Como sou extremamente sensível e emocional, essa minha parte mais lógica e intelectual me ajudou no meu processo de autoconhecimento e de identificação como escritora. Além disso, essa percepção aguçada me auxilia na criação dos personagens. Uma amiga psicóloga me disse, certa vez, que eu tinha habilidade para a área comportamental, e eu falei: pois é, todo o escritor tem um pouco de tudo e de todos dentro de si, psicólogo, psiquiatra, doido varrido e até assassino em série, mas no fundo ele não passa de uma criança muito curiosa tentando entender a realidade. E eu tento entender a realidade do ser humano.


Comentários
7 Comentários

7 comentários:

  1. o que dizer? sou super fã da Janice e essa entrevista só confirma a pessoa tão pé no chão que ela é. uma verdadeira aula para os novos escritores que sonham enfrentar essa máquina editorial aqui no Brasil. é verdadeiramente uma pena que o nosso país não consiga enxergar valor nos nossos autores. Janice é uma mulher guerreira, mãe, talentosa e uma diva! pessoas do bem como você Janice, sempre merecem o melhor! Parabéns ao blog pela entrevista inteligente e bem humorada.bjão meninas!!

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  2. Infelizmente ainda não conheço o trabalho da autora, mas estou doida por esta série. Adorei a resposta para Luxúria,
    Bjs, Rose.

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  3. Que entrevista interessante, gostei muito e percebi que a Janice tem senso de humor!
    Li Terra Ardente e amei, estou esperando ansiosa pelo segundo, Céu em Chamas, venha logo ;)

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  4. Que entrevista interessante, gostei muito e percebi que a Janice tem senso de humor!
    Li Terra Ardente e amei, estou esperando ansiosa pelo segundo, Céu em Chamas, venha logo ;)

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  5. Adoreei a entrevista, muito boa! Me deixou até com vontade de ler o livro dela :D

    xx Carol
    http://hangoverat16.blogspot.com.br/

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  6. Muito boa a entrevista. Vou lançar meu primeiro romance este mês, o Suíte Nº 3, e me identifiquei com essa resposta: "A escrita de um livro começa bem antes de se redigir a primeira palavra. Você fica por anos, meses em cima da ideia até ela amadurecer; e essa ideia é claramente a primeira manifestação de vida dos personagens, são eles dizendo que estão chegando e vão tomar conta da tua vida e da tua alma até você escrever a última palavra do romance". Obrigada, Janice, por me ajudar a descrevi o que eu senti e vivi.

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  7. Oiee ^^
    Estou com esse livro aqui para ler, mas ainda não tomei coragem. Tenho alguns que estão á frente dele, mas logo o lerei.
    Parece ser uma história muito boa ^^ Adorei a entrevista, amo conhecer um pouco mais dos autores ♥
    MilkMilks
    DM
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br
    http://hangoverat16.blogspot.com.br

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